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A máscara que promete, mas não entrega!

Veja o que a ciência mostra em relação a melhora de desempenho com o uso da máscara que simula o treinamento em altitude.

Máscara de treinamento em altitude ou máscara elevation training

O mundo do treinamento físico é algo que chama atenção por vários motivos. Um deles, sem sombra de dúvida, é a capacidade de criar inovações baseadas em possibilidades, hipóteses. Mas estava conversando com Gabriel (@gschirmbeck) e chegamos a seguinte conclusão; para isso é que existe a boa e velha ciência, e se temos uma capacidade aguçada de ler e interpretar a ciência de maneira clara e objetiva, a coisa fica ainda melhor. Hoje vamos falar com você sobre capacidade cardiorrespiratória.

O treinamento em altitude e a capacitação específica de músculos respiratórios têm trazido vários benefícios para atletas de alto rendimento e para reabilitação de pacientes com limitações cardíacas e respiratórias. Diariamente, novos equipamentos e metodologias de treinamento são desenvolvidos a fim de aumentar o desempenho de atletas durante a sua preparação física. No mundo das artes marciais e do MMA (Mixed-Martial Arts), um equipamento em particular recebeu grande atenção: a máscara de “treinamento em altitude” ou máscara elevation training.

A lógica por trás deste aparato parece muito simples: restringindo a quantidade de oxigênio que o atleta pode captar durante a sessão de treinamento, o organismo deveria produzir uma resposta fisiológica a fim de compensar essa restrição, parecido com o treinamento em altitude, e esse é o próprio nome do equipamento “Máscara de treinamento em altitude”.

No treinamento em altitude, onde a concentração de oxigênio atmosférico é significativamente menor, ocorre um processo denominado eritropoiese – o aumento na quantidade hemácias (ou eritrócitos, para explicar o nome), as células que transportam o oxigênio pelo nosso corpo. Essa técnica tem sido usada por anos por diversas nações, o centro de treinamento olímpico dos Estados Unidos fica em Denver – no Colorado, Cidade mais alta dos EUA, justamente para estimular essa situação adaptativa gerada pelo menor conteúdo de O2 na atmosfera.

Mas imagine não precisar fugir para as montanhas para ter esse efeito?

 Isso não lhe parece sensacional? Simular os efeitos do treinamento em altitude sem sair da sua cidade!

Entretanto, se pararmos para pensar, essa máscara, apesar de restringir a capacidade de ar inspirado, não tem como desencadear os mesmos processos fisiológicos do treinamento em altitude real.

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Vamos rever como isso ocorre fisiologicamente?

Quando vamos verificar os motivos que levam a aumentar a capacidade aeróbica quando treinamos em altitude vamos nos deparar com questões relacionadas à PO2 – pressão de oxigênio. Em lugares com mais de 1600m acima do mar vamos ter uma redução significativa da quantidade de partículas de O2 na atmosfera. Se lembrar dos alvéolos, da fisiologia humana básica, vamos nos dar conta que a passagem (absorção) do O2 para o sangue depende dessa PO2 – Sendo assim, em altitude a redução da quantidade de O2 faz com que a PO2 alveolar seja reduzida – por consequência, o transporte de oxigênio para o sangue é bem menor. Essa queda de O2 no sangue faz uma sinalização importante em nível renal – passamos a produzir e liberar um hormônio conhecido por EPO – Eritropoietina.

Leia também: Hipóxia no treinamento de força, quais os efeitos fisiológicos?

Esse poderoso hormônio tem o papel de estimular os órgãos hematopoiéticos a produzir mais hemácias (células do sangue) – em poucas palavras – a altitude promove a produção de mais células de sangue. Essa adaptação é uma tentativa do organismo captar mais O2 nos alvéolos, ele entende que aumentando os transportadores seria mais fácil captar mais oxigênio. Mas a coisa não funciona assim tão fácil. Lembre se que precisa ter a PO2 aumentada para a coisa toda funcionar por completo.

Mas então não temos vantagem e treinar na altitude?

A grande vantagem de viver ou treinar em altitude é quando competimos em nível do mar, com a PO2 mais alta, por termos mais transportadores (hemoglobinas da altitude) vamos ter mais O2 (nível do mar). Dessa forma, a nossa capacidade oxidativa muscular fica otimizada, o que da uma grande vantagem em competições de longa distancia.

Agora vamos pensar juntos: a máscara “milagrosa” dificulta a ventilação, isso é um FATO! Mas de forma alguma isso afeta a pressão de oxigênio atmosférica! Portanto, não há processo adaptativo! Mesmo que houvesse, no resto do dia o atleta está usando a máscara? Então, durante as “23 horas” subsequentes ele está num ambiente que não provocaria adaptações, muito diferente de um atleta que realiza uma fase de preparação em altitude verdadeira.

Mas podemos estar errado, e outros mecanismos podem influenciar o aumento de desempenho, que não esteja ligado a eritropoiese.

Então o que a ciência tem a nos dizer sobre isso?

Sim, temos algo para você!

Um trabalho realizado para comparar os efeitos da “máscara de treinamento em altitude” foi desenhado e aplicado em 24 sujeitos, 16 homens e 8 mulheres, igualmente distribuídos e de forma randomizada, realizaram um protocolo de treinamento semelhante ao conhecido HIIT (High-Intensity Interval Training) , realizando em cicloergômetro (bike estacionaria) 10 séries de 30 segundos de exercício máximo, seguido por 90s de repouso ativo.

Este protocolo já está bem descrito por apresentar adaptações cardiovasculares equivalentes a sessões de treinamento aeróbio contínuo, como aumento do VO2max (GIBALA,2012). Um dos grupos realizou o exercício usando a máscara (M) e outro sem (controle).

Ao fim do período de treinamento, de 6 semanas com duas sessões semanais, ambos os grupos apresentaram melhoras no VO2max. O grupo que usou a máscara teve 16,5% a mais de melhoria e o grupo controle 13,9% quando comparados ao início do treinamento.

Nenhuma outra variável apresentou melhora significativa entre os grupos máscara e controle. Isso mostra claramente uma falha na tentativa de usar tal máscara para aumentar o consumo de oxigênio dos sujeitos. Então quando você enxergar alguém na academia treinando com essas máscaras ou equipamentos para “simular” altitude, você vai lembrar o que falei no começo desse texto. “O mundo do treinamento chama a atenção por vários motivos”.

Mais alguns estudos:

Uso de treinamento com alta intensidade e intervalado não mostrou ter diferença quando usando ou não a máscara. Após as 6 semanas houve uma melhora em uma enzima glicolítica (Fosfofrutoquinase), mas isso não foi capaz de melhorar o desempenho dos sujeitos significativamente (Richardson AJ, Gibson OR.)

Outro trabalho mostrou ser capaz de melhorar a enzimática glicolítica se o treinamento com a máscara for intenso o suficiente (Puype J1, Van Proeyen K, Raymackers JM, Deldicque L, Hespel P.)

Você deve estar pensando, então a literatura mostra ter eficiência usar a máscara? Bem, não é tão simples. Para algumas coisas ela pode servir, ainda estamos em dúvida. Mas a pergunta é: para que ela serve?

Esse estudo mostrou que a oxidação de gorduras reduz com o treinamento da máscara o que pode ser algo ruim dependendo do ponto de vista (Robach P1, Bonne T, Flück D, Bürgi S, Toigo M, Jacobs RA, Lundby C.)

Mas de onde será que saiu essa ideia da máscara? O criador é Victor Conte – um empresário de um grande laboratório farmacêutico. A primeira versão da máscara é de 2009, na época ela parecia um trapo de pano sujo. Algo que pode ser comparada a conduta comercial do criador. O inventor é conhecido no meio esportivo por tramar trapaças anabólicas e criar produtos que depois de algum tempo de investigações científicas acabam sendo desMASCARADAS (desculpem-nos pelo trocadilho), como não servindo para nada.

Esse “rapaz” é o mesmo inventor do ZMA (Zinco – Magnésio – Arginina) que apresentou resultados positivos em uma publicação onde Victor Conte foi coautor – Estudo que foi publicado em uma revista de bom impacto. Claro que depois se descobriu que os resultados não vinham do ZMA e sim de um coquetel de esteroides (L.R. Brilla and V. Conte, “Effects of a Novel Zinc-Magnesium Formulation on Hormones and Strength,” Journal of Exercise Physiology, Volume 3 Number 4 October 2000).

O grande problema do mercado mal-intencionado, é que tem a vantagem de usar o tempo que demora para que as pesquisas (boas) serem realizadas e publicadas mostrando que tal equipamento não funciona ou ajuda bem pouco a melhorar o desempenho humano.

O meu recado é: “acredite sempre na boa ciência”!

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Referências:
(Richardson AJ, Gibson OR., “Simulated hypoxia does not further improve aerobic capacity during sprint interval trainingJ Sports Med Phys Fitness. 2014 Jul 16. [Epub ahead of print] PMID: 25028984).
(Puype J1, Van Proeyen K, Raymackers JM, Deldicque L, Hespel P., “Sprint interval training in hypoxia stimulates glycolytic enzyme activityMed Sci Sports Exerc. 2013 Nov;45(11):2166-74. doi: 10.1249/MSS.0b013e31829734ae).
(Robach P1, Bonne T, Flück D, Bürgi S, Toigo M, Jacobs RA, Lundby C. “Hypoxic Training: Effect on Mitochondrial Function and Aerobic Performance in HypoxiaMed Sci Sports Exerc. 2014 Mar 26).
(L.R. Brilla and V. Conte,Effects of a Novel Zinc-Magnesium Formulation on Hormones and Strength Journal of Exercise Physiology, Volume 3 Number 4 October 2000).

Sobre Dr. Andre Lopes

Dr. Andre Lopes – Professor, palestrante, escritor e cientista. PhD em Ciências do Movimento Humano – UFRGS.

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